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Politica internacional

  • Escritos do século 1 a.C. falam de rejeição e medo do povo judeu, mas há acadêmicos que apontam que, após a morte de Cristo e a publicação das primeiras versões dos evangelhos, a Igreja Católica desenvolveu uma teologia altamente hostil ao judaísmo. Imagem de Jesus Cristo crucificado. Christoph Schmid/Unsplash Antes que o filme 'A Paixão de Cristo', de Mel Gibson, chegasse às telas em 2004, vários grupos da comunidade judaica nos Estados Unidos tentaram boicotar a estreia. A maioria dos judeus que se opunham ao filme dizia que a obra, que retrata de forma bastante crua as últimas horas de Jesus Cristo com base no Novo Testamento, promovia o antissemitismo. Eles diziam que o filme, com o alcance global do cinema dos grandes estúdios, aumentaria a rejeição contra o povo judeu e sua cultura. O boicote acabou não acontecendo. A Paixão de Cristo, por sua vez, tornou-se um dos mais lucrativos filmes da história. Proibido para menores de 14 anos, o longa-metragem tinha orçamento de US$ 30 milhões, mas arrecadou mais de US$ 600 milhões. A polêmica gerada trouxe à tona um debate sobre uma questão antiga: seria a narrativa da Paixão de Cristo fonte do antissemitismo moderno? Os acontecimentos que, segundo a crença cristã, culminaram na morte de Jesus estão no centro das comemorações da Semana Santa e são descritos nos evangelhos canônicos - os únicos aceitos pela maioria das denominações cristãs como legítimos. "Não é possível dar uma resposta simples a uma pergunta como essa, antes de definirmos o que estamos falando, se é antissemitismo clássico ou antissemitismo moderno", disse à BBC Jonathan Elukin, professor de história judaico-cristã no Trinity College, de Connecticut (EUA). "O antissemitismo moderno tem mais a ver com uma concepção política e racial do que com uma religião", explicou o acadêmico. Para o professor, é preciso fazer uma revisão profunda da história onde há elementos que, ao mesmo tempo, afirmam e negam essa ligação da história narrada nos evangelhos e o sentimento de desconfiança em relação aos judeus. Antissemitismo x Antijudaísmo Antissemita é, segundo o dicionário, alguém contrário à raça semítica, aos semitas, especialmente, aos judeus. A palavra foi popularizada pelo jornalista alemão Wilhelm Marr em vários artigos publicados no século 19, onde ele insinuava que a "ameaça" dos judeus à Alemanha era racial. Mas existem registros documentados de vários escritos antigos que falam de "rejeição" e "medo" do povo judeu – o que é definido como antijudaísmo clássico. O jornalista espanhol César Cervera aponta que o escritor grego Diodoro Sículo escreveu em seu documento Historical Library, do século 1 a.C., que "os judeus elevaram seu ódio à humanidade ao nível de uma tradição". Vários historiadores, como o alemão Peter Schäfer, indicam o crescente desprezo pelo judaísmo que foi expresso durante a helenização do Oriente por Alexandre, o Grande. No Império Romano, não era bem visto o caráter monoteísta da religião judaica e nem, como assinala Schäfer, "a crença de que eram o povo escolhido por Deus". "É verdade que os romanos não viam bem os costumes judaicos, nem o fato de que eles adoravam a apenas um Deus, mas eu não acho que isso os enchesse de medo", observa o professor de história judaico-cristã Jonathan Elukin. "Enquanto eles não gerassem uma rebelião, os romanos tinham coisas mais importantes para lidar do que os judeus", explica o professor. 'O povo que matou Jesus' No entanto, há acadêmicos que apontam que, após a morte de Cristo e a publicação das primeiras versões dos evangelhos, o sentimento foi ainda maior devido a textos como os de Justino e Santo Agostinho. Justino, que morreu por volta de 168 d.C. , é reconhecido como um dos primeiros a fazer apologia antijudaica, tendo indicado em vários textos que os judeus eram culpados de perseguir cristãos, e que faziam isso desde que "eles tinham matado Jesus". Já Santo Agostinho, um dos principais pensadores cristãos da Idade Média, destacou ser necessário promover a coexistência pacífica com os judeus, mas pesquisadores lembram que ele assinalou que "eles não podem escapar do castigo divino de serem culpados da morte de Cristo". "Desde o século 2, a Igreja Católica desenvolveu uma teologia altamente hostil ao judaísmo", escreveu a historiadora italiana Anna Foa. "E o que se desenvolveu foi chamado de 'Teologia da substituição': com a chegada de Cristo, Deus teria substituído a antiga escolha (ou preferência) pelos judeus com seu novo favoritismo para os cristãos", acrescentou a historiadora. Passada a Idade Média, o judaísmo voltou a obter sua condição de "igualdade" e avançou na secularização. Mas emergiram outros tipos de ataques: o econômico e o racial. O professor Jonathan Elukin diz que desde o século 19 o povo judeu começou a ser visto "como uma ameaça econômica e política que precisava ser erradicada". "É quando começamos a falar sobre o antissemitismo moderno, que atingiu seu ponto máximo com o holocausto nazista." Mas muitos historiadores rejeitam a versão de que os evangelhos, os escritos de Justino – que deram ênfase especial ao papel dos judeus na paixão e morte de Jesus – e alguns textos de Santo Agostinho geram um sentimento antijudaico. "É certo que os evangelhos não têm nada a ver com esse sentimento. O de São João, supostamente antissemita, afirma que a salvação vem dos judeus", diz o acadêmico mexicano Jean Meyer à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC News. Meyer é autor do livro La Fábula del Crimen Ritual: El Antisemitismo Europeo 1880-1914 (A Fábula do Crime Ritual: o Antissemitismo Europeu 1880-1914) e escreveu num artigo que até o papa emérito Bento 16 diz que "essa afirmação não tem fundamento e nenhum cristão pode responsabilizar os judeus pela morte de Jesus". "A morte de Cristo, diz o catecismo da própria Igreja Católica, foi o efeito de sua vontade e não da violência de seus inimigos", acrescenta o especialista mexicano. O professor de história judaico-cristã Jonathan Elukin compartilha da mesma opinião e cita Santo Agostinho. "É verdade que em alguns escritos de Santo Agostinho há referências que podem ser vistas como antijudaicas, mas a coisa clara é que ele sempre apontou para o povo judeu como responsável pela salvação na qual os católicos acreditam", diz ele. "Santo Agostinho marca, por exemplo, que o cristianismo toma o Antigo Testamento da tradição judaica, concedendo-lhe desta forma (ao judaísmo) uma condição de religião ancestral", acrescenta. 'Culpa' infundada No entanto, para alguns pesquisadores, há posições que sustentam, do ponto de vista histórico, que a origem do antissemitismo não reside tanto nos acontecimentos da Paixão de Cristo como tal, mas nas interpretações daqueles momentos que vários autores fizeram ao longo dos séculos. "A origem do antissemitismo está nos primeiros anos do cristianismo, mas não tanto por causa da Paixão de Cristo, mas por causa dos debates que duraram séculos entre o judaísmo e o novo cristianismo", diz Monika Schwarz-Friesel, especialista em questões religiosas na Universidade Técnica de Berlim. No livro Dentro da Mente do Antissemitismo, Schwarz-Friesel argumenta que "o antissemitismo tem uma origem que pode ser vista dois milênios atrás, que não se limita a ações concretas, mas a simples verbalizações – frases depreciativas sobre os judeus – que se tornaram comuns ao longo dos anos". "E tudo isso aconteceu quando o judaísmo e o cristianismo se separaram e o ódio religioso passou de mão em mão, numa sequência que durou dois mil anos", explica a especialista. "Entre muitas coisas, a acusação de que Jesus foi morto pelos judeus de acordo com a lei hebraica tinha a ver com esse ódio primário", acrescentou o estudioso. No entanto, Schwarz-Friesel conclui que essa visão – de que os judeus eram os culpados – mudou com os anos dentro da Igreja Católica, especialmente por causa da evidência de que seria improvável que a lei judaica se aplicasse quando a região estiva sob o total controle dos romanos. A verdade é que o debate continua num momento em que o sentimento antissemita está crescendo de forma alarmante na Europa e tanto a Igreja Católica quanto os líderes do judaísmo tentam aumentar as instâncias do diálogo para erradicar esse mal.

  • Opositores prometem continuar investigando o presidente americano por suspeitas de que ele obstruiu a Justiça. O anúncio foi feito após a divulgação de um relatório sobre uma eventual interferência russa nas eleições de 2016, que levaram o republicano à Presidência. Versão editada do relatório da investigação sobre Trump foi divulgada ao público Carlos Barria/Reuters Após a divulgação do relatório final da investigação conduzida por Robert Mueller sobre a campanha eleitoral de Donald Trump, os democratas do Congresso americano prometem continuar investigando o presidente por suspeitas de que ele obstruiu a Justiça. Mas não há consenso sobre a amplitude e a profundidade da ofensiva contra o republicano. Entenda os pontos-chave do relatório de Robert Mueller sobre a investigação contra Donald Trump A estratégia ganhou força com a divulgação de uma versão editada do relatório do inquérito sobre suposta interferência russa nas eleições de 2016, quando Trump chegou à Presidência. O documento produzido sob liderança do investigador especial Mueller afirma não ter encontrado provas de que Trump tenha conspirado com russos, mas não há conclusão definitiva sobre as suspeitas de obstrução de Justiça. Trechos do relatório sobre o inquérito contra Donald Trump apareceram apagados Jon Elswick/AP Photo O material de 448 páginas cita diversas ocasiões em que Trump tentou impedir a investigação em si - incluindo uma tentativa de demissão do próprio Mueller. A estratégia do Partido Democrata tem duas frentes: levar Mueller a testemunhar no Congresso sobre sua investigação, que durou 22 meses, e ter acesso à versão completa do relatório - partes foram suprimidas sob alegação de sigilo. Por outro lado, a equipe jurídica de Trump afirma que o relatório não incrimina o republicano. "Trump foi totalmente e completamente inocentado de novo", disse Brad Parscale, gerente de campanha à reeleição de Trump em 2020. O que há no relatório? O relatório de Mueller afirma não ter identificado nenhuma conspiração criminosa entre a campanha de Trump e a Rússia, mas não conseguiu chegar a uma conclusão legal concreta sobre outro ponto: Trump tentou obstruir a investigação em si ou não? Relatório mostra que inquérito não encontrou provas conclusivas de que Trump tenha praticado conluio ou obstrução, mas cita episódios que devem alimentar tempestade política Jonathan Ernst/Reuters "Se tivéssemos segurança após uma investigação completa dos fatos de que o presidente claramente não cometeu obstrução da Justiça, nós afirmaremos isso", diz o relatório. "Com base nos fatos e nas normas legais aplicáveis, não podemos chegar a essa conclusão." "Assim, este relatório não conclui que o presidente cometeu um crime, mas também não o inocenta." O relatório também revela que : Trump instruiu um advogado da Casa Branca a tentar remover Mueller da investigação sob alegação de "conflito de interesse", mas o profissional pediu demissão por discordar do pedido Trump supostamente usou um palavrão quando a investigação de Mueller foi anunciada, acrescentando: "Oh, meu Deus. Isso é terrível. Este é o fim da minha presidência. Estou fodido" Mueller analisou dez ações do presidente em relação à suposta obstrução da justiça, que, segundo ele, "se deram publicamente" A eventual obstrução pelo presidente só falhou porque membros de sua administração se recusaram a "cumprir ordens" Investigadores consideraram as respostas escritas do presidente às suas perguntas como "inadequadas", mas optaram por evitar uma batalha judicial potencialmente longa para interrogá-lo A porta-voz de Trump, Sarah Sanders, disse em um comunicado na TV que "incontáveis" autoridades do FBI perderam a confiança em seu chefe, James Comey (demitido por Trump), mas ela disse aos investigadores que essa afirmação "não foi fundamentada em nada" O que dizem os democratas? Nancy Pelosi e Chuck Schumer, líderes do Partido Democrata no Congresso, disseram em um comunicado conjunto que o relatório de Mueller apresenta "uma imagem perturbadora de um presidente que vem montando uma rede de mentiras, trapaças e comportamento impróprio". O partido iniciou suas movimentações para tentar obter o documento completo (sem as edições feitas pelo procurador-geral, William Barr, sob alegação de sigilo a fim de evitar prejuízos a investigações e ao processo legal). Foram suprimidas informações de agências de inteligência ou relacionadas a depoimentos concedidos aos chamados grand juris (sessões fechadas em tribunais, para definir o prosseguimento ou não de alguns processos judiciais), por serem confidenciais. Democratas querem que Mueller testemunhe no Congresso. A congressista Jackie Speier disse à BBC que o investigador "basicamente jogou a bola para o Congresso e disse 'você precisa buscar a obstrução de Justiça aqui'". Infografia sobre o relatório de Mueller BBC/Reprodução Os democratas também atacaram Barr, acusando-o de "enganá-los" com um resumo que ele produziu sobre supostas conclusões do relatório, principalmente sobre as suspeitas de conluio e obstrução de Justiça. Barr convocou jornalistas antes de tornar público o relatório e saiu em defesa do presidente. O relatório tem sido visto como uma ferramenta potencial para o impeachment do presidente, mas o líder da maioria da Câmara, Steny Hoyer, disse que isso não seria "válido neste momento". "Muito francamente, há uma eleição dentro de 18 meses e o povo americano fará um julgamento", disse ele à CNN. Quais são os planos dos democratas? Análise de Jon Sopel, editor de América do Norte da BBC News. Eu acho que uma estratégia presente entre democratas é que eles gostariam de ver um presidente Trump chegando às eleições de 2020 um pouco ferido, um pouco enfraquecido. O perigo de tomar a rota do impeachment é que um processo uniria o Partido Republicano. Por essa razão, avalio que a liderança democrata prefira minar o presidente em vez de seguir uma rota que quase certamente acabaria em fracasso e quase certamente seria contraproducente. E a despeito de todas as perguntas, dúvidas, contradições e cartas na manga, Trump emerge com duas manchetes principais: Mueller diz que não houve conluio com russos; o procurador-geral diz que não houve obstrução de Justiça. Como Trump reagiu? Em um evento para militares veteranos, Trump afirmou estar em um "dia bom" - acrescentando que não houve "conluio" ou "obstrução". Representantes do presidente afirmaram que a investigação foi uma "farsa". "Agora, as mesas viraram e é hora de investigar os mentirosos que instigaram essa investigação fictícia contra o presidente Trump, com motivações políticas e baseados em nenhuma prova", disse Brad Parscale. Várias reuniões entre funcionários do governo russo e membros da campanha de Trump foram identificadas ao longo das investigações Kevin Lamarque/ Reuters Em um tuíte, Trump disse que tinha o direito de "encerrar toda essa caça às bruxas" e demitir Mueller se quisesse. Na manhã desta sexta-feira, o presidente tuitou novamente, usando um palavrão para chamar o relatório de "forjado e totalmente falso". Como os russos reagiram? Por meio do porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, a Rússia comentou as conclusões do relatório, dizendo que não continha "novas informações". "O relatório não apresenta nenhuma prova razoável de que a Rússia teria interferido no processo eleitoral nos EUA", disse Peskov a jornalistas na sexta-feira.

  • 'Deixo meu corpo como uma amostra do meu desprezo aos meus adversários', escreveu o ex-presidente peruano, antes de morrer. Chegada do caixão de García à sede do Apra, seu partido, em Lima, no dia 17. Ernesto Benavides / AFP O ex-presidente peruano Alan García deixou uma carta antes de cometer suicídio na última quarta-feira (17), na qual afirmou não querer sofrer a injustiça de ser preso sob acusação de participar de um escândalo de corrupção. "Vi outros desfilarem algemados, guardando a sua miserável existência, mas Alan García não tem por que sofrer essa injustiça e esse circo, por isso deixo aos meus filhos a dignidade das minhas decisões, aos meus companheiros um sinal de orgulho, e o meu corpo como uma amostra do meu desprezo aos meus adversários, porque já cumpri a missão que me impus", diz a carta, lida por Luciana García Nores, uma das filhas do político, no funeral realizado em Lima, na sede do Partido Aprista Peruano, do qual era o líder. No texto, revelado pouco antes de o caixão com o corpo de García ser levado ao cemitério onde será cremado, o ex-governante também declarou ter cumprido a missão de levar duas vezes ao poder a legenda. García, que governou o Peru em dois mandatos (1985-1990 e 2006-2011), afirmou na carta que seus adversários políticos "optaram pela estratégia" de denunciá-lo durante mais de 30 anos, mas "jamais encontraram nada". Velório sem honrarias "Neste tempo de boatos e ódios repetidos que as maiorias acreditam ser verdadeiros, vi como são usados os procedimentos para humilhar, e não para encontrar verdades", enfatizou. "Por muitos anos me coloquei acima dos insultos, me defendi, e a homenagem dos meus inimigos foi argumentar que Alan García era suficientemente inteligente para que eles não conseguissem provar as suas calúnias", acrescentou. O político garantiu que "não houve, nem haverá contas, nem propinas" e que "a história tem mais valor que qualquer riqueza material". "Nunca poderia haver preço suficiente para quebrar o meu orgulho de aprista e de peruano, por isso repeti: outros se vendem, eu não", frisou. García também escreveu ter cumprido seu dever "na política e nas obras feitas em favor do povo, alcançando metas que outros países ou governos não conseguiram". Milhares de pessoas, entre elas políticos e autoridades, velaram o corpo de García, que tinha 69 anos. A família do político preferiu que a cerimônia fúnebre não tivesse honras oficiais. Depois da leitura da carta, o filho mais novo de García, Federico Danton, de 14 anos, assinou sobre o caixão do pai o documento que o inscreveu como militante do Partido Aprista. O ex-presidente do Peru se matou com um tiro na cabeça, logo após um promotor e a polícia chegarem à sua casa para prendê-lo por acusação de corrupção dentro de um escândalo de pagamento de propinas envolvendo a construtora brasileira Odebrecht no país.